Jericho Brown

Jericho Brown é um poeta e professor de escrita criativa norte-americano. Publicou os livros: Please (2009), The New Testament (2014) e The Tradition (2019). É vencedor do Pulitzer Prize for Poetry, American Book Award entre outros. Seus poemas e livros são inéditos no Brasil.

Apresento aqui três de seus poemas. Os poemas “Outra elégia” são de seu livro The New Testament. Já “Alvo” é do livroThe Tradition.

Outra elégia

Espere a morte. Em cada linha,

A morte é uma metáfora que não

Significa nada, se auto-representa,

sem posses para vender. Ela entra

Esteja sua casa suja

Ou não. Esteja você limpo

Ou não, você chega atrasado

Porque você não acredita nela

Quando, soluçando como de costume, ela

Liga para dizer que se você não parar

Seu irmão, ela vai matá-lo.

Desta vez. Para que pressa? A essa altura,

Você acredita que ela gosta, as mãos dele

Estapeando seus sete tons de vermelho.

Além disso, seu irmão é muito

Maior que você — uma vez você tentou

Puxá-lo da mulher que ele ama

E perdeu um dente. Espere perder

Outro enquanto você se ergue à toa

Sobre seu corpo, testemunha

Ou jornalista, assassino ou parente.


Outra Elégia

Nossa morte parece assim:

Você acredita no sol. Eu acredito

Que eu não consigo te amar. Esteja sempre encerrando,

Disse nosso professor favorito

Antes de disparar o gatilho dentro de sua boca.

Eu fiz 29 do jeito que um homem se revira

Durante seu sono, insciente da terra

Movendo-se abaixo dele, suas placas em

Seus lugares, um desacordo calculado.

Vamos combater isso, baby. Você tem

Pouco restando — um homem revirando-se

Durante o sono — então eu tiro uma foto.

Não vou olhá-la, claro. É o seu

Lado ruim, seu Mr. Hyde, o buraco

Na cabeça de um marido, o O

Na boca da esposa. Toda noite,

Eu tomo um comprimido. Pulo um, sou falecido.

Pulo dois, estamos resolvidos. Hotéis

Me enfadam, a menos que eu tenha vista para a montanha,

Um quarto onde meu celular não funciona,

E não há nada para ser feito senão ver

O sol descendo ao chão

Que nos embala como um caixão.


Alvo

Eu não vou atirar

Na minha cabeça, eu não vou atirar

Nas minhas costas, eu não vou me enforcar

Com um saco de lixo, e se eu fizer,

Eu te prometo, não farei

Algemado em um carro da polícia

Ou na cela de uma cidade

Que eu apenas conheço o nome

Porque eu tenho que cruzá-la para

Chegar em casa. Sim, talvez eu possa estar em risco,

Mas eu te prometo, eu confio nos vermes

Que vivem debaixo do assoalho de madeira

Da minha casa para fazerem o que devem

Com qualquer carcaça mais do eu confio

Em um agente da lei da terra

Para fechar meus olhos como um homem

De Deus faz, ou para me cobrir com um lençol

Tão limpo que minha mãe poderia ter usado

Para me fazer dormir. Quando eu me matar, eu irei

Fazê-lo do mesmo jeito que a maior parte dos americanos fazem,

Eu te prometo: fumaça de cigarro

Ou pedaço de carne na qual eu engasgo

Ou tão desgraçado que eu congelo

Em um desses invernos que continuamos

Chamando de o pior. Eu prometo que se você ouvir

Falar de mim morto próximo de

Um policial, então aquele policial me matou. Ele

Me roubou de nós e deixou meu corpo, que é,

Não importa o que nos foi ensinado,

Maior que qualquer indenização

Que uma cidade possa pagar para uma mãe parar de chorar,

E mais bonito que um projétil novo

Pescado dos pedaços do meu cérebro.


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Amanda Vital

Amanda Vital (Ipatinga/MG, Brazil, 1995) is an assistant editor for the magazine Mallarmargens. She holds a degree in Literary Studies with UFMG, currently she studies a master in Text Edition with Universidade Nova de Lisboa (Portugal). She has two books published: Lux (Penalux, 2015) and Passagem (Patuá, 2018). She has poems and translations published in magazines, blogs and journals – online and printed – such as Germina, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Equimoses, Zona da Palavra, Jornal RelevO e Revista Caliban. She also contributed for anthologies like Ventre Urbano and 29 de abril: o verso da violência. She curated the 4th edition of the anthology Carnavalhame.

scalpel n.4

what a woman does in some poems beyond

being beautiful and silent? the poet describes her hair

her curves conjuring a woman just to

speak about beauty and soon close the doors because a       

woman doesn’t enter into his political philosophical

metaphysical critical poems invokes a woman like a dog

on the couch when is necessary to warm up his feet

after a day of work but if the dog barks with disgust

in disapproval it isn’t permitted cause a good dog makes no sound

a dog & a woman: good only for these purposes

being beautiful silent and smooth preferably

while the poet writes under one or other disguise

nature or greek mythology or classic movies

his loud thirsty desire to fuck a woman

I finish this poem because I’ve been busy and I need to –


Uncle

escape from the grip: dodge the body to the sides

run around the living room table imagine that

it’s the last lap hold tears amid the forced hug

cover the bathroom window with dirty clothes

pick the farthest seat dine avoiding raising

your head gaze at every kidney bean wait till

everyone stand to work out the precise second

to save myself between my father’s long legs

remember to never read comics facing down on the couch

never be alone in any room of that house

don’t take the risk of fingers piercing what

remains untouched silently try to sleep

and dream the skin freedom once the summer holidays are over


ruminate

my granny wasn’t afraid to stare at an ox’s face:

tamed animal anger with her eyes wide open in

the silent combat pupil against pupil but once

while pregnant with my mother she came in the shed

and an angry cow with her calf recently born pushed

the barrier up with her forehead and broke in her direction

my grant put her back against the wire and only

closed her eyes waiting for death or saying goodbye

to her children her husband to the poor about to be born baby

that has to go through awful things and haven’t thought in praying

cause in these moment even god doesn’t help to pacify instincts

or open the barrier started to feel drips on her face

the cow’s muzzle drizzling its territory

granny still said with staring eyes the cow lowered

its head smelling her motherly pregnant womb

inhaling coldness exhaling warmth they were good minutes

of smelling her womb till it turned and went back

to the stables with short steps it looked like a miracle

granny came back to a reality where a mother recognizes

another mother by the scent of her calf: my mother’s

mother wasn’t afraid of staring  her eyes at

oxen breaking their will without blinking

but with cows calmness only came when maternal


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Chiamaka Enyi-Amadi

Chiamaka Enyi-Amadi é escritora, performer, facilitadora cultural e editora literária. Seu trabalho já foi publicado em Poetry International 25, Poetry Ireland Review 129, RTÉ Poetry Programme, IMMA Magazine, Architecture Ireland, The Irish Times, Writing Home: The ‘New Irish’ Poets anthology (Dedalus Press 2019, editado por Pat Boran & Chiamaka Enyi-Amadi) e The Art of the Glimpse: 100 Irish Short Stories (Head of Zeus 2020, editado por Sinead Gleeson).

Medo

Era uma vez uma pequena criança

que adormeceu, enrolada

no peito morno do pai como

era previsível ao final de seu ritual

noturno de contar histórias, ela dormiu

e sonhou toda a noite com um animal

chamado Medo que agarrou-a e engoliu-a

quando ela voltava para a voz de

seu pai, fechando suas garras vermelhas e grossas

ao redor de seus olhos, vertendo um sussurro

macio como fumaça

em seu ouvido, “você perdeu seu caminho

criança, nunca retornará

ao mundo”, verdadeiramente

a estrada que ela seguira, iluminada

pelo aveludado brilho de seu abajur,

não mais aparecia diante de seus vastos olhos,

e sem aviso a realidade

desapareceu como uma fina linha desenhada

na areia, rapidamente levada

por uma brisa impaciente.


Alquimia

É compreensível que tenhamos medos distintos.

Não há o que perdoar

Mas você se amedronta facilmente quando eu apareço no umbral à meia-noite —

Buscando um alquimista — sofrendo —

Para ser —

Purificada —

Limpa —

e entregando-me.

O corpo

É ouro, livre de imperfeição,

Forma refinada.

Não há poros abertos: como o corpo está respirando?


Ouvindo

Sua respiração pesada —

Correndo as paredes

Eu assisto a pintura ondulando

Tornando-se brasas amarelas

Descamação desesperada da pele —

[você gosta de uma garota que anseia por dor — que morde a própria carne; lambe as próprias feridas]

escorchando em pequenas rachaduras como fumaça nova.


Há mais para ser sopesado do que ouro.

Eu estou aqui agora

mas você está pensando.

Posso pedir para você aquecer o percurso?

Isso será perdoado?


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Rodrigo Novaes de Almeida

Rodrigo Novaes de Almeida is a writer and editor. Has a degree in Journalism, postgraduate in Publishing and has was worked at Apicuri, Saraiva, Ibep, Ática and Estação Liberdade, publishing houses in Brazil. In November 2016, created Revista Gueto, literature portal that publishes and launches writers and poets. He published the following short story collections: Carnebruta (Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) and Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), which was finalist of the 61th Prêmio Jabuti (Literary award in Brazil), in 2019, among other books.  A clareira e a cidade (Editora Urutau) is his first poetry collection and will be published later this year.

Toccata and grieve scape

Inspired in Paul Celan’s ‘Death Fugue’

A cup of tea we drink every morning

and at noon and at the end of the day.

We eat a toast,

and, when we can, a roll or a hash brown.

We build our houses walls

and pour concrete on our roof.


The man, ah! the man

plays with his hunting dogs

that are not like our stray dogs.


The man, ah! the man

have fun with his wife

that has Wolff* in her name, and make laws

to send our people to the grave.


A cup of tea we drink every morning

and at noon and at the end of the day.

The thin milk and the grimy ground coffee

are not the same on the table

of the man with the wife

that has Wolff in her name.


He orders his haunting dogs:

“Dig deep into the soil.

We’ll bury the bones”.

The sky is grey over Brazil

while the happy man create laws

to send our people to the grave.


“Play martial march’s drum”

He demands.

“Sing to the Lord that is above everything.

Kill, Kill.”

And so is the dance,

the dance of destruction and death.


The sky is grey over Brazil.


A cup of tea we drink every morning

and at noon and at the end of the day.

The black gold was given to foreigners.

The black skin was left behind to be slaughtered.

“Dig deep into the soil.

Remove the nigger, bury the nigger”.


The man with his wife that has Wolff in her name

plays with his hunting dogs and wishes.

Destruction and death

are Brazil’s final pedagogy.

Note: Rosângela Wolff Moro is Sergio Moro’s wife. Moro was the Minister for Justice in Bolsonaro’s government. He was also the judge who sentenced Lula, Brazilian ex-president, to jail. Lula was the top candidate in pools for Brazilian presidential election in 2018. Judge Moro declared that he was offered the job while acting as a judge. Messages leaked showed that Judge Moro was providing tips, informations and orders to prosecutors who were investigating Lula which is illegal under Brazilian law.


The unsuccessful son

sorrow doesn’t leave me 

even now

holding my son for the first time

(books screwed me up, I acknowledge it) 


one day I’ll have to tell to this unpleasant creature

if it doesn’t die in the next few days

son, do not read the books that I read

be happy


as these people that watch TV on Sundays

and on working days

fattening cancer that grows inside them


Civil War

They’ll remember how the war ended

won’t know when it began

Would it have been with bombs falling over the first city that betrayed the Republic? 

— or would it have been the last city to defend Republican ideals? 

They won’t know. 


Initially, paramilitary groups broke out on the streets.

Initially, they struck us with arbitrariness and executions.

Initially, arrangements and looting took place.

They won’t know. 


After the authorities had fallen

men in uniform remained to impose order 

and they brought the gag and the whip 

hunger followed, cholera, malaria

Children of this land beaten, muted

However, they will only remember how the war ended

“Everything happened so fast”, cowards will say.


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Daniel Francoy

Translucent Poem

There is inevitably, in any period

between catastrophes, one night of good rainfall.

Work ends earlier and we think

just yesterday everything was calculation, squalor

and blood, but now peace breathes widely. 

There is still, inevitably, love

that still stands up, that still walks

like an animal fearless of lightning.


How a corpse can offer resistance?

How a corpse can offer resistance?

How Hector can avoid that Achilles

drags his body before the Trojan walls? 

How Joan of Arc can, with a breath of ashes,

prevent the flames from consuming her flash? 

How an executed man can untie 

the knot that broke his neck? 


The reader will say: but the poet who writes is not a body

and I’ll agree. Indeed, I’m not

but this is not the question. It is precisely another,

so I replace it, defeated, as a verse. 


How a corpse can offer resistance?


Where is the Chinese poem of a thousand years ago?

I have all words

for a poem like those Chinese

written a thousand years ago.

The word bird, the word flower,

blue nightingale dam

that brought so much terror 

as a child for evoking

water stranded in the lungs of a drowned. 

And I still have the word water, its transparency, 

and more than one word to say

red, to say sun

and the word eyes to fix the flight

of a bird until it seems an engraving

among high buildings with colorful bedsheets

hung on clotheslines in the windows.

Where then the Chinese poem written

a thousand years ago in me?

Among so much beauty, the poet Du Fu

saw children dying of hunger,

warriors dismembered eviscerated 

and I also live in an inured place 

and I have the word fish in a filthy aquarium.


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Simone Sav

Simone Sav nasceu na Romênia onde completou um a graduação em Francês e Literatura e um mestrado em Linguística. Ela já apresentou seus poemas no programa Poetry Programme da RTÉ Radio na Irlanda. Seus trabalhos já foram publicados em diversas revistas e antologias, a mais recente sendo Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019) na Irlanda.


Silêncio


O silêncio dos olhos

antes do primeiro beijo.


O silêncio do perdão

dado muito tarde.


O silêncio de um arco-íris raro

sobre as dunas.


O silêncio do olhar fixo da Virgem Maria

na criança escolhida.


O silêncio da grua

num domingo vadio.


O silêncio de livros fechados

na estante empoeirada da biblioteca.


O silêncio da mímica

rugindo.


O silêncio da cabeça curvada

rezando.


O silêncio de uma avenida

em confinamento.


O silêncio de um amor

que eu nunca confessei.


Equação

Traça a forma da felicidade

Nas linhas do meu corpo,

Quando eu sustento meus braços paralelos ao chão

Na antecipação de um abraço amoroso.


Mede a distância entre as rugas na minha fronte

Para quantificar os metros quadrados da minha saudade.

É diretamente proporcional ao peso da sua negligência

Multiplicada pelo número de eventos.


Escreve uma equação para calcular a curvatura dos meus lábios

Quando eles subitamente abrem-se num sorriso.

Desenha, estima, calcula, apaga, conta, expande,

Altera, endireita, funde todas as linhas que fazem de mim quem eu sou.


E pergunta-te:

‘Qual a condição matemática

para qual ela é uma equação necessária?’


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Lubi Prates

Lubi Prates (1986, São Paulo, Brazil) is a poet, translator, editor and literature curator. She has three books published (coração na boca,2013; triz, 2016; um corpo negro, 2018). The last one was contemplated by PROAC with a creation and poetry publication scholarship and will be published in Argentina, Colombia, EUA, Spain and France, besides being a finalist of the 61st Prêmio Jabuti and the 4th Prêmio Rio de Literatura, two literary prizes in Brazil. She has publications in national and international magazines and anthologies. She organized poetry festivals for women poets’ visibility  [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) and Otro modo de ser (Barcelona, 2018) and also participated in other literary festivals in Brazil and Latin America. She is a founding partner and editor at nosotros, editorial and edits the literary magazine Parênteses. She is dedicated to actions that fight the invisibility of women and blacks. Currently, she is doing a PhD in Psychology of Human Development, at Universidade de São Paulo. 


to this country

to this country

I’d bring


the documents that make me human

the documents that prove: I exist

it seems silly, but here

I am still not sure if: I exist. 


to this country

I’d bring


my degree books that I read

my boxes of photos 

my electronic devices

my best panties


to this country

I’d bring

my body


to this country

I’d bring all these things

& more, but


I wasn’t allowed any luggage 


: not enough room


that ship could sink

that plane could break apart


with the weight that life has. 


to this country 

I brought 


my skin color 

my curly hair

my mother tongue

my favourite dishes

in the memory of my language 


to this country

I brought

my orishas

over my head

my entire family three

ancestors, the roots


to this country

I brought all these things

& more


: nobody noticed

but my luggage is so heavy. 


it wasn’t  a cruise

my name and

my language


my documents and

my direction 

my turban and

my prayers 

my memory of

dishes and djembes

I forgot on the ship

that crossed me

on the Atlantic


********

being a woman is a blessing 

being a woman is to generate and give birth

being a woman is to have a pussy, two breasts, big buttocks


being a woman is

being blond, blue eyes, never having dishevelled hair

is  having blood running on your legs & no letting them taking notice even if 


you run

you swim

you dance 


being a woman is a blessing

and since the Bible is being stoned burnt killed

a contradiction 


I found out now that

I’m not a woman 


I’m alive

never burnt

never burnt


I’m black, only a black woman 


and the blood that comes from my womb

allow it to be a river 

going back to earth and


I run

I swim 

I dance


mess up my hair


I found out now that

I’m not a woman


I have a dick

only one breast

narrow hip


I’ve never given birth 


I found out now that

I’m not a woman


being a woman is a blessing


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